“Nenhum de nós é tão bom, e inteligente quanto todos nós” Marilyn Ferguson
O Jogo é uma manifestação cultural muito significativa. Ele surgiu com a humanidade e até hoje tem um papel fundamental no desenvolvimento de todos os povos da raça humana. Podemos dizer que o Jogo é como um grande espelho que reflete a forma como determinada sociedade vive, as relações entre as pessoas e aquilo que teoricamente aquela comunidade acredita, seus valores e sua moral.
Fazendo uma retrospectiva histórica (muito rápida, porque este é um papo para outro artigo...), é possível encontrar, nas brincadeiras de criança ou nos esportes praticados pelos adultos, elementos muito claros que caracterizam a época em que estão inseridos. O Jogo é um reflexo direto da vida, e uma forma muito eficaz de refletir sobre como estamos vivendo.
Pensando neste aspecto, reparem um pouco na nossa sociedade. Nós vivemos a COMPETIÇÃO de uma forma tão enraizada, tão forte e já tão internalizada que muitas vezes nem percebemos. Guillermo Brown, no seu livro “Jogos Cooperativos – Teoria e Prática”, dá um exemplo que ilustra nossa cegueira: “Os peixes não refletem sobre a natureza da água: não podem imaginar sua ausência e, portanto, não levam em conta a sua presença”. O mesmo acontece com a gente. Somos tão condicionados a competir (pela sociedade, pela família, pelo sistema econômico e até pela educação formal) que não paramos para refletir sobre os efeitos deste comportamento no nosso dia a dia e nas nossas relações. Aprendemos desde cedo a competir com o outro no processo de conseguirmos o que desejamos.
Como já comentei anteriormente, o jogo é um espelho da vida. Se hoje estamos mergulhados em um mar de competição, obviamente esta é a base dos nossos jogos. Logo que entrei na pós graduação em Jogos Cooperativos fui assistir ao treino de futebol do meu marido em um clube onde ele nunca havia jogado. Eles se reúnem todas as segundas e quartas de manhã (bem cedo!), e jogam livremente por uma hora e meia. Não é campeonato, não são jogadores profissionais, nada disso. Qualquer pessoa pode participar. Em teoria. Sentei cinco minutos na arquibancada e fiquei chocada! Os “novos” têm de provar seu talento, ou com certeza não levantam do banco. Se entram em algum time, não podem errar ou são xingados de nomes impublicáveis! E os mais “antigos” (alguns jogam juntos há mais de dez anos!) também não são poupados! Errou, sai! Meu marido, que ama futebol (e joga muitíssimo bem!), agüentou três treinos e desistiu.
Outro exemplo. Outro dia estava no quarto da minha sobrinha de sete anos, brincando com ela e mais duas amiguinhas. Estávamos cantando uma música, e fazendo uma coreografia de gestos (“fui visitar a minha tia em Marrocos, ih, oh!”), e morrendo de rir! Foi aí que ela fez uma proposta: “vamos ver quem canta melhor e mais bonito?” Ela queria que cada uma cantasse uma vez a música e que depois eu votasse na melhor artista! Eu, obviamente não topei, e elas ficaram frustradíssimas!
Nos jogos competitivos, o êxito de um implica, invariavelmente, no fracasso do outro. Mesmo em jogos com equipes, pode haver união dentro do time, mas todos estão unidos em prol de um objetivo: a derrota do outro. Esta dinâmica trás conseqüências como a exclusão (daqueles com menos capacidade de ganhar), a humilhação (dos perdedores), um sentimento de disputa que muitas vezes extrapola os limites da quadra, e principalmente, TIRA A DIVERSÃO DO JOGO.
Quando o lúdico passa a não ser mais divertido, é hora de tomar uma atitude. E uma proposta para esta transformação é a da Cooperação, e dos Jogos Cooperativos, onde todos ganham, já que jogam com o outro e não contra ele.
É possível aplica-los nas mais variadas situações: por professores, educadores, recreadores. Podem ser aplicados na sua casa, com seus filhos. Podem ser aplicados nas empresas, com funcionários, com diretores... são atividades para pessoas de todas as idades, são muitos por exemplo, os projetos com a terceira idade.
Segundo Brown, no jogo cooperativo:
- Jogamos para superar desafios ou obstáculos e não para vencer o outro.
- Todos participam, ninguém é excluído.
- As metas importantes são as coletivas, e não as individuais.
- Todos criam e contribuem.
- Há a eliminação da agressão física contra o outro.
- São desenvolvidas atitudes de empatia, cooperação, estima e comunicação.
E como (vou repetir mais uma vez!) o jogo imita a vida, ou a vida imita o jogo, os Jogos Cooperativos desenvolvem estas características nas pessoas. São impregnados de lições de auto conhecimento, auto estima, respeito pelo outro, tolerância com o diferente e todos os comportamentos ligados à cooperação. É substituir as famosas frases “o importante é competir” e “você precisa saber perder” pela vitória de todos e superação de um desafio comum. É recuperar e redescobrir a diversão e o com-tato com o outro.
“Por que não usar a força transformadora dos jogos para ajudar a nos tornarmos o tipo de pessoa que realmente gostaríamos de ser?” Terry Orlick