Brincar não é simplesmente um passatempo, mas um exercício fundamental que determinará o êxito das diversas etapas do desenvolvimento e da aprendizagem. Enquanto uma criança manipula objetos com diferentes sons, cores, texturas e formas, desde os primeiros meses de vida, está não apenas trabalhando funções motoras, mas qualificando a atividade cerebral.
- As pessoas desvalorizam o brinquedo - constata a pedagoga Maria Angela Barbato Carneiro, uma das palestrantes do workshop Estímulo Infantil e os Benefícios para o Desenvolvimento do Ser Humano, realizado na última terça-feira em São Paulo. - A criança aprende nas interações, com o corpo inteiro - acrescenta.
Maria Angela destaca uma característica peculiar dos bebês - a predisposição para aprender. Grandes exploradores, utilizam-se dos cinco sentidos para aproveitar cada experiência. E aqui consideram-se atitudes corriqueiras, como permitir que brinquedos adequados estejam à disposição desde o berço. A interação com os pais ou os cuidadores é imprescindível, pois seu filho precisa aprender o que fazer com esses objetos. É inútil se limitar à teatralidade irresistível dos adultos, quando se põem a sacudir chocalhos e bichos de pelúcia em frente à criança para depois largá-los no cercadinho sem nenhuma instrução.
- Brincar não é inato, a criança aprende. Não adianta ter um monte de brinquedos e não ter quem interatue com ela - adverte a pedagoga.
Larissa Roso viajou a convite da Fisher-Price
Não encha o berço de objetos
Respeite a cronologia do desenvolvimento. A criança adquire firmeza e equilíbrio na seguinte ordem: cabeça, ombros, braços (traz objetos para perto de si e da boca), tronco, cintura e joelhos (pode engatinhar ou não).
Os lactentes brasileiros mostram pequena defasagem em quesitos como postura e tônus muscular quando comparados com os norte-americanos, entre o terceiro e o quinto mês de vida. A diferença, segundo estudos, está ligada à qualidade da estimulação proposta.
Pesquisas indicam que prematuros - especialmente os meninos - têm cerca de 40% de atraso na aprendizagem em relação às crianças que nasceram no tempo certo, e por isso precisam receber mais estímulos.
Fale devagar, olhe nos olhos, explore expressões faciais, acaricie. Permita que seu filho toque seu rosto e suas mãos.
Os brinquedos de hoje exploram muito o contraste entre preto e branco, bastante eficaz para despertar a atenção dos pequenos. Mas não esqueça dos artigos coloridos. Mostre-os próximos ao rosto do bebê.
Observe a postura do seu filho: ele precisa ter condições de erguer a cabeça ou ficar sentado com a coluna reta para aproveitar determinados brinquedos. Não o force a fazer o que ainda não tem condições.
Evite o canto do sofá. Se a criança ainda não consegue se manter sentada sozinha, cairá para a frente, uma vez que tem apoio nas costas. Isso criará um péssimo hábito - ela comprimirá o estômago, sentirá desconforto e se jogará para trás. Prefira uma cadeirinha, que é confortável e deixa os braços livres para brincar.
Não encha o berço de brinquedos. A criança consegue prestar atenção em, no máximo, três itens de cada vez. Se lhe for oferecido um número maior, ela perde o interesse e se dispersa. O excesso de estímulos pode, inclusive, ter repercussões fisiológicas, provocando sono, irritação, choro e alterações de comportamento.
Para os bebês, escolha artigos com alças (para melhor manuseio), sons e texturas diversos. A atividade física está diretamente ligada à ação mental. Brincando se aprende muito. A criança depara com desafios a superar.
Na companhia de um adulto, é bom que o bebê fique de bruços, para exercitar a firmeza do pescoço e da cabeça. Não enrole demais a criança em cobertores, mantas ou xales. Roupas demais impedem os movimentos.
Móbiles decorativos devem ser afixados na lateral do berço. Se estiverem posicionados muito para trás, a criança precisará se contorcer para enxergá-los.
Consulta: Liss Labate Marques, fisioterapeuta e coordenadora da equipe de fisioterapia da UTI neonatal da Maternidade Pro-Matre (SP), Luiz Celso Pereira Vilanova, neurologista, neuropediatra, professor e doutor em neurologia, e Maria Angela Barbato Carneiro, pedagoga, doutora em ciências da comunicação e coordenadora da Brinquedoteca e do Núcleo de Cultura, Estudos e Pesquisas do Brincar e da Educação Infantil da PUCSP
Para todas as idades
Até os três meses
A criança brinca com o próprio corpo (enrola o cabelo, põe o dedo na boca), é capaz de agarrar objetos, brinca com o corpo da mãe.A partir dos três meses Leva coisas à boca, pega e larga objetos repetidamente para fixar a ação. Ofereça guizos, mordedores e chocalhos.
Por volta dos seis meses
O bebê senta e, deitado, consegue mudar de posição. São indicados brinquedos para berço e banho e livros com páginas emborrachadas. Aparentemente, o desenvolvimento é mais motor do que psicológico - apenas aparentemente.
De oito a 10 meses
A criança engatinha (em alguns casos, não sempre) até ficar em pé, começa a falar e imita o que a mãe faz. A primeira forma de brincar é imitar. São interessantes bolas e brinquedos para encaixar.
De 11 a 15 meses
Aprende a caminhar e pronuncia palavras simples. Construir torres é uma atividade atraente para ela. Disponibilize brinquedos de encaixar e objetos para puxar, como carrinhos para guiar com um barbante.
Aos 18 meses
É muito importante a interação entre o cuidador e a criança. Nesta etapa, as brincadeiras têm mais valor biológico e psicomotor do que afetivo e social. Primeiro a criança brinca sozinha, para depois se integrar às demais.